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quarta-feira, 2 de março de 2016

Da liberdade à saudade: 20 anos sem Mamonas Assassinas


O dia de hoje (quarta-feira, 2 de março) é marcado por um dos mais trágicos acontecimentos da história da música brasileira. Há 20 anos, um fatídico acidente causou a morte dos cinco integrantes dos Mamonas Assassinas. O país inteiro se comovia pela perda de uma das bandas mais impactantes que tivemos. 


Há exatos 20 anos, em um sábado de sol, eu acordava, com apenas cinco anos de idade, e me dirigia à sala, para tomar meu café da manhã. Ouvi meu pai, que acabava de voltar da padaria, dizer para minha mãe que, enquanto estava na fila do pão, viu a notícia na TV que um acidente aéreo havia matado os Mamonas Assassinas. 

A notícia foi recebida como um raio em minha cabeça, pois, apesar de saber que era algo muito grave, não entendia o que era a morte. Sabia as suas consequências, mas não compreendia o que realmente era. 

O fato tomou proporções gigantescas. Os cinco foram enterrados com honras de Estado, devido ao sucesso tão rápido conquistado. 

Sucesso que, aliás, é fácil de ser explicado. Em 1995, o Brasil estava há apenas 10 anos em um regime democrático. O cenário musical era recheado de revoltados ? cujas músicas já não faziam mais sentido para o povo, uma vez que a ditadura foi derrubada e todos já se acostumavam com o regime atual ? e românticos, entre sertanejos, pagodeiros, roqueiros e outros. No entanto, nenhum destes havia ousado tanto quando o quinteto da cidade de Guarulhos (SP). 
Nenhuma banda havia testado, de maneira tão intensa, os limites da liberdade de expressão após o fim da censura. 

Entra aí a genialidade dos Mamonas Assassinas. Ao terem a noção da liberdade que tinham para escrever, abusaram da criatividade ao criarem letras cômicas, sexuais e até ofensivas para a época. Satirizaram outros estilos musicais que estavam na moda na época. O fator criativo surpresa, que gerou certo choque na população, foi o ponto de partida do sucesso do grupo. 


Eu não era nascido nos anos 1960. Ainda assim, imagino que a reação popular ao ouvir os Mamonas Assassinas cantarem "nesse raio de suruba, já me passaram a mão na bunda e ainda não comi ninguém" tenha sido similar à resposta que houve ao ver os Beatles tocando com roupas extravagantes e penteados estilizados ? para a época, é claro. 

A identificação popular foi além da música. O fanatismo criado em torno dos Mamonas Assassinas foi, de certa forma, um grito de liberdade. O público entendia, enfim e novamente, o significado da liberdade. 
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As emissoras televisivas ficaram em choque. Afinal, como poderia, uma banda entrar no ar, ao vivo, com um vocalista vestido de mulher, gritando aos quatro cantos do mundo que "ontem eu era católico e hoje eu sou um gay"? Veio, assim, a cereja do bolo, o gol que faltava para a goleada dos Mamonas Assassinas contra os padrões morais ultrapassados que a sociedade velava. 


As crianças, que, mesmo sem saber o que era uma suruba, se divertiam em ver o moço cantando "bunda". Mesmo sem saber o que significava ser gay, cantavam, para quem quisesse ouvir: "abra sua mente, gay também é gente". 

Em poucos meses, os Mamonas Assassinas conseguiram disco duplo de platina pelo álbum de estreia, autointitulado, em poucos meses. Estiveram em todos os maiores programas de todos os maiores canais da televisão brasileira e chegaram ao auge de forma tão rápida que, talvez, jamais seja repetida. 

Perdemos essa genialidade de uma forma tão rápida quanto uma estrela cadente que nos traz a esperança de um desejo e desaparece. 
Entretanto, o legado de liberdade deixado pelos cinco meninos de Guarulhos permanece até os dias de hoje. Dificilmente, na atualidade, alguém cantaria as letras dos funks cariocas e sertanejos universitários se não fosse o pioneirismo dos Mamonas Assassinas em desafiar o sistema e implantar um novo padrão na música.

Resta entre nós, contudo, a dúvida: como seriam eles hoje? Será que ainda fariam sucesso? Ainda estariam juntos? Na verdade, isso não importa. Eles existiram e, por mais breve que tenha sido a história da banda, foi o suficiente para nos alegrar e nos fazer entender como é gostoso sermos livres. 

Um agradecimento especial de um fã, que teve neles a primeira relação de idolatria, o primeiro contato com o politicamente incorreto e com a estranha figura que é a morte. 



Revista.Cifra





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