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sábado, 9 de julho de 2016

Assessora trans coloca preconceito no chão e faz história na Assembleia Legislativa de Pernambuco


É a primeira contratação na história da Casa de uma mulher trans. Servidora vai atuar na assessoria da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Alepe



Após 2 anos atuando no Centro de Combate à Homofobia no Estado, Fabianna fará parte da assessoria da Comissão de Cidadania da Alepe / Foto: Alexandre Gondim/JC Imagem


Fundada há 181 anos sob forte influência da Igreja Católica, a Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) só agora, no último 28 de junho - Dia do Orgulho LGBTI (lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e pessoas intersex) - deu um passo histórico ao admitir a primeira mulher trans ao quadro de servidores da Casa Joaquim Nabuco.

Em um ano marcado por episódios de intolerância e conservadorismo nas esferas legislativas, como o projeto de lei na Alepe que pretendia proibir qualquer debate sobre identidade de gênero e diversidade sexual nas escolas públicas, o ingresso de Fabianna Mello Oliveira, 36 anos, à assessoria da Comissão de Cidadania, Direitos Humanos e Participação Popular da Casa ganha notoriedade por causa da carga política. Não há maneira melhor de defender os direitos de determinados grupo sociais do que dar voz a quem faz parte deles. E Fabianna sabe bem da importância que o cargo representa tanto para ela quanto para o segmento em que milita. 

Membro da Articulação e Movimento para Travestis e Transexuais de Pernambuco (Amotrans), ela trabalhou por 2 anos no Centro Estadual de Combate à Homofobia, ligado à Secretaria Executiva de Direitos Humanos de Pernambuco. Nesse período, ela viveu histórias, ouviu lamentos e conheceu a face dura daqueles que querem, apenas, respeito. Agora, a meta é aproveitar o espaço no Legislativo para dar vez e voz à luta LGBTI.

“Falar de Direitos Humanos é falar da minha vida, porque todos os direitos me são negado a todo o momento, a toda hora. Acho engraçado porque a gente tem uma visibilidade invisível. É um paradoxo, porque a visibilidade vem com matérias nos jornais e registros, mas se é invisível nos direitos. Eu não tenho direito à empregabilidade, por exemplo”, expôs. “Quantas vezes você andou por aí e viu uma pessoa trans trabalhando? É um direito que nos é negado pelo simples fato de ser quem somos. Só por ser transexual ou travesti”, desabafou.


Fabianna será responsável por analisar e pensar em projetos na área de Direitos Humanos. 


Após a intolerância dos colegas a afastar da bancas da faculdade quando ainda estava na fase de transição, Fabianna retomou a graduação e voltou a estudar Psicologia. Fluente em dois idiomas e com passagem por instituições de ensino da Pensilvânia, nos Estados Unidos, ela conta que teve dificuldade para arrumar trabalho no retorno ao Brasil. Mais uma vez, o preconceito montou a muralha da segregação.


No retorno ao Recife, conseguiu dar aulas de inglês num curso particular, mas os pais dos alunos pediram a sua saída para “não influenciar as crianças”. “Quando acontece isso é uma morte social”, cravou. “Então, infelizmente, é por isso que a gente precisa rotular, porque serve de representatividade para outras meninas”, explicou, ressaltando a importância da representatividade nas esferas de poder.

Com as portas fechadas, ela conta que não encontrou outro caminho a não ser a prostituição - sina traçada para maioria das mulheres trans. Para Fabianna, não há problema em falar do passado. O desafio é olhar para o futuro e lutar para que “meninas” como ela não sejam obrigadas a enfrentar os mesmos atropelos.

“Quero que elas tenham outra oportunidade”, afirmou. Fabianna trabalhava nas ruas de São Paulo e sentiu no corpo a força da repressão policial às travestis e trans. “A ordem deles era dizer a Rota para pegar a gente e bater”, contou. “É um risco que você corre até hoje. É muito doloroso. Se luto hoje é por mim e por aquelas que virão, que elas tenham opção de continuar estudando e terem outras alternativas”, contou. Ao longo da entrevista, ela fez questão de pontuar que não busca privilégios, mas oportunidades.

PROJETOS - Tão desafiador quanto integrar a comissão será a luta que terá que travar no Legislativo. É, justamente, neste colegiado onde acontecem debates intensos sobre questões de gênero. Lá também são dadas mostras de intolerância e homofobia. 

A comissão é presidida pelo deputado estadual Edilson Silva (PSOL), responsável pela contratação de Fabianna, mas a bancada evangélica da Alepe também está em peso no colegiado. O convite para trabalhar na assessoria veio do assessor da comissão de cidadania, Rafael Vasconcelos e de Edilson Silva.

“Ela tem potencial, militância e diálogo com o segmento. E isso não pode ser desperdiçado. Então apresentei a proposta ao deputado para o convite e imediatamente foi acatado”, contou Rafael.

Edilson explica que Fabianna ocupa o posto por sua competência e militância na área. “É para nos auxiliar profissionalmente, mas também para emprestar o olhar da mulher trans nas diversas pautas que temos travado aqui na Casa. Temos que enfrentar um debate que trata da questão de gênero, seja no ambiente escolar, no transporte público, na utilização de banheiros”, afirmou.

Quanto as propostas em mente, Fabianna destacou algumas ideias sobre monitoramento do sistema prisional direcionado para o público LGBTI. A intenção é fazer um relatório sobre o panorama penitenciário. Também há propostas para combater projetos de lei de cunho transfóbico, como o que propõe segregações de banheiros públicos de acordo com o sexo biológico, desconsiderando a questão do gênero. 




Fonte Jc On Line




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