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quinta-feira, 8 de março de 2018

Macaparanense e Ex Aluna da Escola de Referência EREM é destaque no Diário de Pernambuco




Netos de agricultores quebram tradições familiares e ingressam em universidades públicasEm Macaparana, Zona da Mata, as novas gerações têm rompido com as tradições profissionais voltadas para a cana-de-açúcar devido ao acesso facilitado à educação, com investimentos descentralizados no ensino médio de referência

A estudante Acsa Mendes foi a primeira pessoa da família a ingressar em uma universidade pública. Foto: Rafael Martins/Estúdio DP



Nem sempre ter força de vontade para superar os obstáculos socioeconômicos é o suficiente para alcançar um grande sonho. 

É necessário aliar força de vontade ao acesso a uma educação de qualidade e pessoas que acreditam e apoiam quem deseja mudar de vida. E disso a estudante Acsa Mendes, de 18 anos, sabe bem. Escolheu para si, logo nos primeiros anos de vida, a medicina como profissão. Por ter crescido dentro de um contexto social diferente, no qual a educação para pessoas de baixa renda era algo raro, seu pai, Paulo Mendes, acreditava que ela poderia se frustrar com o sonho alto. “Sou nascido e crescido em Macaparana, filho de agricultor e de mãe merendeira. E a história nesse lugar é a seguinte: as pessoas que têm a oportunidade para fazer o curso de medicina são as ricas. Você não vê pobre com história de que se formou médico”. 

O caminho para que Acsa conquistasse uma vaga na universidade pública, no curso de medicina, foi lapidado a muitas mãos. Ganhou força na Escola de Referência de Ensino Médio Professora Benedita de Morais Guerra, em Macaparana, a cerca de 85 quilômetros do Recife, onde cerca de 80% do total de 350 estudantes matriculados anualmente alcançam o ensino superior. A educação de qualidade nunca esteve tão acessível como hoje no município. Graças à descentralização de investimentos do governo do estado no Ensino Médio de Referência (EREM), diversos jovens têm rompido com tradições profissionais, voltadas massivamente para o cultivo da cana-de-açúcar, uma das principais atividades econômicas da região desde a fundação de Macaparana, por volta de 1930. Ao todo, em Pernambuco, foram criadas cerca de 300 EREMs, distribuídas entre as regiões do Agreste, Zona da Mata, Litoral e Sertão. 

As razões do número elevado de estudantes da mesma escola de Acsa ingressando no ensino superior se concentram em dois pilares principais, segundo a gestora da instituição, Laudicea Farias: foco na infraestrutura e no capital humano. Devido ao investimento de R$ 4 milhões do governo do estado em 2015, a Escola Professora Benedita de Morais Guerra ganhou um novo endereço. Antes da mudança, os estudantes e profissionais dividiam poucos metros quadrados em um prédio cedido pela prefeitura desde a fundação da escola, em 2009. “Não posso negar que quando nos mudamos para escola nova, a qualidade das aulas mudou muito. Pela falta de laboratório, alguns experimentos não podiam ser realizados”, comenta Acsa, que nas primeiras aulas do ensino superior entrou em contato com o laboratório de química da faculdade, já familiarizada com os equipamentos que conhecia graças às aulas práticas no EREM. 

Com uma população de aproximadamente 25 mil habitantes, Macaparana mantinha há poucos anos uma forte tradição: estudantes que conseguiam concluir o ensino médio regular eram destinados para o comércio local e os demais para atividades braçais, como a colheita de cana-de-açúcar e cultivo de banana, de acordo com a diretora da EREM, Laudiceia Farias. Não era incomum, por exemplo, que o pensamento sustentado pelo pai de Acsa se estendesse a mais pessoas da localidade. “A escola trabalha para mostrar que o filho do canavieiro e o filho da pessoa mais rica do município podem, igualmente, ser o que quiserem. Seja advogado, médico, professor. Damos a mesma condição a todos, acreditando no sonho deles, ainda que eles mesmos não acreditem que possam chegar lá”, comenta, acrescentando que existem professores que matricularam os próprios filhos na instituição, o que para ela comprova a qualidade das aulas e o compromisso com os estudantes.



Um dos laboratórios de destaque do EREM é o Café Filosófico que, apesar do nome, não está centrado apenas em questões reflexivas, mas inclui práticas e exemplos do cotidiano. As oficinas são fruto da ação do professor de história e filosofia Daniel Ferreira de Lima, que trabalha há 8 anos na escola. “Nós começamos com poucos alunos, na unidade anterior da instituição. Como não tínhamos sala de aula livre para isso, nossas reuniões aconteciam debaixo de uma árvore de Pau Brasil. Hoje, enchemos o auditório com os alunos e a comunidade”. O projeto que tem como intuito compartilhar saberes diversos e expandir a capacidade de argumentação e não é restrito apenas aos estudantes, o que dá abertura para que moradores da comunidade participem. O laboratório é respeitado na região a ponto de ter um bloco exclusivo na rádio comunitária, espaço em que é difundido o assunto que será a pauta da semana.

Segundo Daniel, os temas surgem de acordo com a demanda da comunidade. Certo dia, uma aluna da escola foi agredida pelo companheiro. Para evitar que isso acontecesse a outras estudantes, ela disse ao professor que queria discutir o assunto no espaço do Café Filosófico. A partir desse trabalho, a escola mostra outras formas de pensar assuntos do cotidiano e ajuda os macaparanenses a conhecerem mais sobre política, história e questões de gênero, com saberes construídos de forma coletiva. 

Breno tenta aproveitar todos os espaços e atividades oferecidas pela EREM em que estuda. Foto: Rafael Martins/Estúdio DP


Breno Lucas Teodosio, 15 anos, ingressa em 2018 no 2º ano do ensino médio e reforça que existe uma atenção especial dos alunos em referente à preservação do espaço escolar. “Estamos sempre contribuindo para manutenção dos equipamentos dos laboratórios de química, robótica e informática, porque em caso de reposição, é necessário a gente ir até o Recife para conseguir uma peça nova”. Almejando ingressar em arquitetura, design ou engenharia, Breno faz questão de participar de todas as atividades que a EREM oferece. “Eu faço robótica, gosto das aulas de literatura e estou presente em todos os projetos que consigo. Desenvolvo-me e me apego aos professores. Tento preservar ao máximo o patrimônio da escola para que isso represente no futuro uma coisa boa para nós”, destaca. 

Devido ao esforço coletivo, em 2013, a EREM ficou entre as primeiras colocações no ranking estadual no Enem entre escolas da mesma categoria, além de ter conquistado a melhor nota no Índice de Desenvolvimento da Educação de Pernambuco (Idepe) do ensino médio, com 5,83 em 2014. Um dos estímulos aos estudantes foi a implementação de um laboratório de literatura, antes mesmo da consolidação do novo espaço. Em alguns dias da semana, as turmas se reunem em círculos para ler, na íntegra, um livro referente ao movimento literário estudado em sala de aula. “Os estudantes passam a entrar em um processo de articulação melhor. A construção textual deles melhora e a forma de se expressar”, explica a professora de literatura Leila Araújo, na instituição desde 2015. 



Fonte Diario de Pernambuco



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