AGORA NO BLOG...

domingo, 28 de abril de 2019

Com estudo, gêmeos macaparanenses quebram histórico familiar de trabalho braçal e vão para o exterior


Com estudo, gêmeos macaparanenses quebram histórico familiar de trabalho braçal e vão para o exterior




Notas excelentes em português e matemática e domínio de uma língua estrangeira renderam uma vaga para a cada um no Programa Ganhe o Mundo (PGM). Em agosto, eles embarcam para o exterior.


Foi necessário mergulhar nos livros diariamente, entrando pela madrugada, e usar as férias escolares como tempo extra de estudo, mas um casal de gêmeos da pequena Macaparana, na Mata Norte do Estado, conseguiu quebrar uma história familiar secular de anafalbetismo e trabalho rural exaustivo. Notas excelentes em português e matemática e domínio de uma língua estrangeira renderam uma vaga para a cada um no Programa Ganhe o Mundo (PGM), do Governo do Estado. Em agosto, Luan e Luana dos Santos, 16, embarcam para o exterior. 


Quando voltarem, querem entrar na universidade. Ela quer estudar alguma engenharia. Ele quer a área de saúde. 

É louco por biologia. “Aqui, quem tem pais trabalhadores rurais, sempre acaba sendo trabalhador rural também. Mas minha mãe não quis que a história continuasse. Podemos hoje escolher o que vamos ser”, contou Luan. 


Com a rotina que os gêmeos levam, é possível que consigam atingir o sucesso que desejarem. “A gente chega do colégio integral e ensina a tarefa ao nosso irmão mais novo e ao nosso sobrinho. Ajudamos no serviço de casa e depois vamos estudar, até a madrugada. Fico até 1h30.

Ele até às 3h, quando tem tarefas maiores. Mas Tem que controlar a hora de dormir, porque tem aula dia seguinte”, conta Luana. “Saímos às 7h15. Se sair de 7h19, temos que vir nas carreiras para não chegar atrasado”, completa o irmão.



Foi Josefa dos Santos, 52, mãe dos gêmeos e de outros cinco, que transferiu a própria vontade de estudar e aprender a ler para eles. Começou a trabalhar no roçado aos seis anos. “Eu chorava, querendo ir à escola, mas minha mãe dizia que só iria se desse tempo, depois do trabalho no campo. Aprendi a escrever meu nome e algumas poucas palavras. Decidi que meus filhos teriam uma vida diferente. Que iriam estudar”, contou.


 Ela chama a atenção na Escola de Referência em Ensino Médio Benedita de Morais Guerra, por não faltar reuniões, desde os primeiros filhos que se tornaram seus alunos. Ia grávida, amamentando, doente. “Acho importante saber o que está acontecendo lá. Deixo o que tiver para fazer em casa, mas vou.” Há uma fascinação pelo ambiente escolar. “Se eu tivesse estudo, não estaria aqui. Estaria onde o destino desse. Agora é a partir deles que posso viver outro lugares.”

O filho mais velho de Josefa foi o único que seguiu o curso da família na roça. Quando era criança, moravam em um sítio e a escola muitas vezes se tornava inacessível pela falta de ônibus escolar. Outros três estudaram no Erem e já cursam graduações em universidades públicas. “Quando o erem chegou, eu achava que era coisa para quem tinha dinheiro. Meu primeiro filho entrou e dizia que as pessoas olhavam atravessado para os sapatos, coisas assim, porque somos pobres. Aconteceu com os gêmeos, também. Mas eu sempre dizia que eles ignorassem isso e estudassem. Hoje, há até quem tem inveja deles porque passaram no exame e vão morar fora do Brasil”, conta. 


O país para onde irão ainda será, aleatoriamente, definido. Eles não se importam caso fiquem separados. Dizem que são gêmeos, mas cada um tem a sua própria história. O PGM pode levá-los à Argentina, ao Chile, ao Uruguai, à Colômbia ou à Espanha. Até hoje, o lugar mais distante que os gêmeos - e seus pais - foram, foi o janga, em Paulista, onde uma parente mora. “Achava que isso nunca poderia acontecer com quem não tem dinheiro. E eu tenho medo, porque Luana é minha única fêmea. Eu soube que lá é muito distante. Que quando aqui é dia lá é noite. Digo que eles têm que ter cuidado para saber onde vão e para não perder a hora.” Em Macaparana, Josefa é quem acorda os meninos para ir ao colégio, já que passam a noite estudando.

 
De fora do Brasil, ninguém tem ideia do que vai encontrar. Se Macaparana tem 25 mil habitantes, Santiago tem 5,6 milhões. Buenos Aires tem quase três. “Sei que lá eles têm uma fala diferente”, arrisca o pai, seu Luiz dos Santos, 59, que segurou a barra financeira se mantendo no trabalho rural para que Josefa pudesse para com o trabalho rural e cuidar da casa e da educação dos filhos. Como ela, escreve pouco. A expertise é no roçado, destocando banana com a enxada pelos engenhos da Mata Norte. 

O trabalho de seu Luiz depende da demanda, que varia de dois a cinco dias de trabalho por semana e rende R$ 32 a diária. Os Santos ainda recebem R$ 200 de bolsa família.




Fonte Folha PE 

←  Anterior Proxima  → Página inicial

0 comentários:

Postar um comentário